Bárbara curvou a cabeça para baixo, observando, de rabo de olho, os movimentos de Carla que andava de um lado para o outro atendendo aos clientes.
_ Você já foi atendida?
Carla continuou atendendo no balcão enquanto Bárbara pensava no que pediria, se é que compraria alguma coisa.
Carla, uma mulher de trinta anos, morena, não muito alta, melhor dizendo: baixa. Olhos vivos e negros, assim como os cabelos. Escondia-se atrás de um uniforme composto por uma calça verde, uma blusa branca, um avental vermelho, atenuados a um acessório na cabeça: uma toquinha vermelha. Em sua beleza tropical com um quê de ''baianitude'', ela trabalhava há um ano em uma famosa padaria na Zona Sul de Niterói.
Bárbara, 23 anos, estudante de medicina. Alta com um metro e setenta. Magra, cabelos e olhos castanhos claro.
Ela se perguntava, no momento em que ousava perceber aquela beleza tão cravo e canela da moça, enquanto ela preparava um hambúrguer e um suco de laranja na máquina para servir a um rapaz que parecia faminto.
_ Por que ela trabalha aqui? Deveria estar na TV ou nos palcos com esse rosto belo que rapidamente ficaria conhecido. E o que devo pedir? Não tenho fome.
Bárbara notou que no momento de sua pergunta interior, Carla se dirigiu a ela sorrindo e essa ação lhe causou uma certa quentura na cabeça e no resto do corpo.
Fora da padaria o fim de tarde ainda era de sol rachante, pleno horário de verão, e o clima estava úmido, o que favorecia ao suor no rosto e nas mãos. Ali naquele recipiente fechado, nem o ar refrigerado foi capaz de amenizar o calor que Bárbara sentira ao se deparar com Carla fitando-a com o seu sorriso brando lhe sendo cordial.
Pedindo um guaravita, tratou de beber lentamente para que o tempo passasse devagar, assim ela poderia observar ainda mais os movimentos da atendente.
Logo a tarde caiu e a noite adentrou as portas de vidro da padaria. Bárbara, sentada em um banquinho próximo ao balcão, mexia em sua pasta retirando alguns livros fingindo ler algumas páginas, aproveitando o ambiente agradável. Com o passar das horas ela achou que seria melhor voltar outro dia para não levantar qualquer suspeita sobre a sua pessoa.
Mas todos os dias, ao final da aula, tornou-se rotina passar na padaria para beber lentamente um guaravita, ou mais. Talvez sua glicose estivesse um pouco alterada devido à bebida adocicada.
_ Oi, Bárbara! Tudo bem? Vai querer um guaravita hoje, amor?
Assim Carla se dirigia à futura médica. Essa intimidade foi criada gerando expectativa em sua cabeça e essa atitude fez com que ela pensasse em escrever uma carta colocando em linhas toda a sua descoberta.
Bárbara, que sempre saía à noite da padaria, nesse dia saiu mais cedo e se dirigiu para casa cheia de idéias; já não conseguia se concentrar na faculdade e nem em sua monografia, só pensava em como elaborar a carta.
_ Já está ficando chata essa situação; eu passo horas a fio lá dentro e só tomo um guaravita.
Na sexta-feira seguinte, saiu ainda pela manhã da faculdade, não chegou a assistir as primeiras aulas; foi até a biblioteca da Universidade, passou a carta que estava em esboço no caderno para o computador, e com mais de cem linhas, perdeu uma hora fazendo e refazendo suas frases.
Pronta a carta, saiu correndo, pegou o seu fiesta vermelho e tentou correr para chegar no local antes de Carla, pois ela entrava no serviço às 14:00hs; ainda pegou um pequeno engarrafamento na Presidente Pedreira, no Ingá, o que atrasou um pouco o seu percurso. Conseguiu chegar quinze minutos antes.
Olhou para todos os cantos do recinto e antes que se arrependesse, retirou o envelope de sua bolsa lilás e entregou nas mãos de qualquer atendente pedindo que entregasse a Carla, fingindo ser o convite para a festa de aniversário de seu sobrinho Lucas, assim as colegas de trabalho não estranhariam, embora ela não devesse qualquer tipo de satisfação, mas por respeito ao que pudessem pensar sobre suas vidas, ela contou essa mentira branca.
Nessa carta Carla descobre o quanto é amada por Bárbara. O amor que surgiu de uma paixão instantânea, à primeira vista.
Passaram-se dias, outras sextas-feiras e Bárbara nunca mais apareceu.
O guaravita continuou sendo servido.
Keyla Fogaça.

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