quinta-feira, 30 de setembro de 2010

O Guaravita

Bárbara curvou a cabeça para baixo, observando, de rabo de olho, os movimentos de Carla que andava de um lado para o outro atendendo aos clientes.
_ Você já foi atendida?
Carla continuou atendendo no balcão enquanto Bárbara pensava no que pediria, se é que compraria alguma coisa.
Carla, uma mulher de trinta anos, morena, não muito alta, melhor dizendo: baixa. Olhos vivos e negros, assim como os cabelos. Escondia-se atrás de um uniforme composto por uma calça verde, uma blusa branca, um avental vermelho, atenuados a um acessório na cabeça: uma toquinha vermelha. Em sua beleza tropical com um quê de ''baianitude'', ela trabalhava há um ano em uma famosa padaria na Zona Sul de Niterói.
Bárbara, 23 anos, estudante de medicina. Alta com um metro e setenta. Magra, cabelos e olhos castanhos claro.
Ela se perguntava, no momento em que ousava perceber aquela beleza tão cravo e canela da moça, enquanto ela preparava um hambúrguer e um suco de laranja na máquina para servir a um rapaz que parecia faminto.
_ Por que ela trabalha aqui? Deveria estar na TV ou nos palcos com esse rosto belo que rapidamente ficaria conhecido. E o que devo pedir? Não tenho fome.
Bárbara notou que no momento de sua pergunta interior, Carla se dirigiu a ela sorrindo e essa ação lhe causou uma certa quentura na cabeça e no resto do corpo.
Fora da padaria o fim de tarde ainda era de sol rachante, pleno horário de verão, e o clima estava úmido, o que favorecia ao suor no rosto e nas mãos. Ali naquele recipiente fechado, nem o ar refrigerado foi capaz de amenizar o calor que Bárbara sentira ao se deparar com Carla fitando-a com o seu sorriso brando lhe sendo cordial.
Pedindo um guaravita, tratou de beber lentamente para que o tempo passasse devagar, assim ela poderia observar ainda mais os movimentos da atendente.
Logo a tarde caiu e a noite adentrou as portas de vidro da padaria. Bárbara, sentada em um banquinho próximo ao balcão, mexia em sua pasta retirando alguns livros fingindo ler algumas páginas, aproveitando o ambiente agradável. Com o passar das horas ela achou que seria melhor voltar outro dia para não levantar qualquer suspeita sobre a sua pessoa.
Mas todos os dias, ao final da aula, tornou-se rotina passar na padaria para beber lentamente um guaravita, ou mais. Talvez sua glicose estivesse um pouco alterada devido à bebida adocicada.
_ Oi, Bárbara! Tudo bem? Vai querer um guaravita hoje, amor?
Assim Carla se dirigia à futura médica. Essa intimidade foi criada gerando expectativa em sua cabeça e essa atitude fez com que ela pensasse em escrever uma carta colocando em linhas toda a sua descoberta.
Bárbara, que sempre saía à noite da padaria, nesse dia saiu mais cedo e se dirigiu para casa cheia de idéias; já não conseguia se concentrar na faculdade e nem em sua monografia, só pensava em como elaborar a carta.
_ Já está ficando chata essa situação; eu passo horas a fio lá dentro e só tomo um guaravita.
Na sexta-feira seguinte, saiu ainda pela manhã da faculdade, não chegou a assistir as primeiras aulas; foi até a biblioteca da Universidade, passou a carta que estava em esboço no caderno para o computador, e com mais de cem linhas, perdeu uma hora fazendo e refazendo suas frases.
Pronta a carta, saiu correndo, pegou o seu fiesta vermelho e tentou correr para chegar no local antes de Carla, pois ela entrava no serviço às 14:00hs; ainda pegou um pequeno engarrafamento na Presidente Pedreira, no Ingá, o que atrasou um pouco o seu percurso. Conseguiu chegar quinze minutos antes.
Olhou para todos os cantos do recinto e antes que se arrependesse, retirou o envelope de sua bolsa lilás e entregou nas mãos de qualquer atendente pedindo que entregasse a Carla, fingindo ser o convite para a festa de aniversário de seu sobrinho Lucas, assim as colegas de trabalho não estranhariam, embora ela não devesse qualquer tipo de satisfação, mas por respeito ao que pudessem pensar  sobre suas vidas, ela contou essa mentira branca.
Nessa carta Carla descobre o quanto é amada por Bárbara. O amor que surgiu de uma paixão instantânea, à primeira vista.
Passaram-se dias, outras sextas-feiras e Bárbara nunca mais apareceu.
O guaravita continuou sendo servido.


Keyla Fogaça.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Inauguramos o nosso espaço atribuindo nossa homenagem a Itérbio Galiano Aldrighi.




ENTRE 20 CONTOS PREMIADOS DO PROFESSOR E ESCRITOR ITÉRBIO GALIANO ALDRIGHI, INSERIDOS NO LIVRO DE SUA AUTORIA ''OLHOS DO TEMPO'', FOI DIFÍCIL ESCOLHER UM PARA ABRIR AS NOSSAS POSTAGENS! MAS DECIDI POR UM TÍTULO QUE MUITO ME CHAMOU A ATENÇÃO, SEGUIDO DO TEXTO QUE ME COMOVEU.

A MORTE DA RAINHA

CÂNDIDA, DOUTORA MARIA CÂNDIDA, SEGURA A MÃO CADAVÉRICA. FALA DOCEMENTE, SORRI E OLHA PARA OS OLHOS ENEVOADOS E A BOCA FEDORENTA, QUERENDO ALIVIAR A AGONIA.
INTERNADO HÁ CINCO DIAS COM AIDS, JÁ EM FASE TERMINAL DA DOENÇA, ALTAIR MAURÍCIO, NASCIDO NO SUBÚRBIO CARIOCA, 37 ANOS, PARDO. DOMICÍLIO IGNORADO, FILHO NATURAL DE ZULEIDE MAURÍCIO E DO WILSON, BIROSQUEIRO DE PÉ DE MORRO.
MIRRADO COMO ELE SÓ, AO CHEGAR A ESTE MUNDO, OS VIZINHOS, À BEIRA DO BERÇO, O TINHAM NA CONTA DOS MORTOS. SUA ALMA DE ANJINHO, LOGO, LOGO, ESTARIA NOS BRAÇOS DE NOSSO SENHOR.
AOS PRIMEIROS VAGIDOS FOI POSTO NUMA CAIXINHA DE SAPATOS. ARRODEADO DE ALGODÃO, COM UMA LÂMPADA SEMPRE ACESA JUNTO AO CORPO, PARA AQUECÊ-LO E SERVIR-LHE DE GUIA, ILUMINANDO SEUS CAMINHOS NESTA VIDA.
CRESCERA CORRENDO PELAS RUAS E BECOS DAS FAVELAS. NAS PERNAS DE SARACURA ALGUMA PEREBA EM ATIVIDADE, O CORPO MARCADO PELAS PORRADAS DOS OUTROS MENINOS. DESDE PEQUENO VESTIA-SE COMO A MÃE. RODOPIAVA NOS SAPATOS ALTOS E RIA MUITO AO VER AS SAIAS ESVOAÇANTES. EXTASIAVA-SE AO MIRAR-SE NO ESPELHO QUEBRADO DO QUARTO, AO RETOCAR OS LÁBIOS COM O CARMIM DE UM BATOM ORDINÁRIO. SEUS CABELOS RALOS E QUEBRADIÇOS PELA DOENÇA NÃO LEMBRAM EM NADA O CUIDADO QUE TINHA AO PENTEÁ-LOS, DEMORADAMENTE, NOS DIAS DE MENINA-MOÇA, SEDUTORA-SEDUZIDA. SUAS MÃOS, AGORA ESQUÁLIDAS, SUBSTITUEM AS AVELUDADAS MÃOS DE CREME RISQUÊ. OS DEDOS EM GARRA, AS UNHAS PRETAS DE SUJEIRA, LUVAS DA MORTE, ESQUECERAM-SE DO TEMPO EM QUE GESTICULAVAM NO TROTTOIR; MÃOS DE CARÍCIA DESFIGURADAS, LONGE DOS CORPOS AMANTES, DOS GIGOLÔS, DOS ESPANCADORES, DOS PRAZERES ESCOLHIDOS.
NOS SEUS PASSEIOS, ENCONTROU-SE COM O VÍRUS DEVASTADOR, IMPERIALISTA NO PODER DE DOMÍNIO E MULTIPLICAÇÃO, ESCAPULIDO OU DEIXADO SAIR DE ALGUM CENTRO DE PESQUISAS. DESCUIDO DE ALGUÉM? A CONSCIÊNCIA NÃO GUARDA.
A ALEGRIA DOS TEMPOS DE GLÓRIA, MANTENDO CRECHES E ABRIGOS PARA OS ‘’POBRES DE DEUS’’ (REPETIA SEMPRE), O DINHEIRO DAS DESPESAS CONTADO A CADA DIA, OS PEDIDOS DE AJUDA, AS LÁGRIMAS DE DESESPERO, A GANA PRA LUTA. TUDO PALAVRAS BALBUCIADAS NOS DELÍRIOS MISTURADOS. OS DE ANTIGAMENTE TINHAM O SABOR DAS AVENTURAS REGADAS A ÁLCOOL E A COCAÍNA, SOB FUMAÇA DE MACONHA. AGORA O CHEIRO FORTE DE ÉTER, O ENTRA E SAI DOS ENFERMEIROS, OS OLHARES DE PIEDADE, DE INDIFERENÇA, DOS ACOSTUMADOS COM AS VIAGENS DA VIDA. AS ENFERMEIRAS DE PORTAS ABERTAS PARA O COMPRIMIDO E FRIO CORREDOR, DE ONDE A MORTE SORRI VITORIOSA.
SONHAVA UM DIA SER COROADA, TER CETRO E TRONO, ORDENAR QUE SEUS AMANTES PRESENTES E FUTUROS CONTRIBUÍSSEM COM UMA QUANTIA MENSAL PARA O SUSTENTO DAS ‘’VÍTIMAS DO ABANDONO’’. E DISSO NÃO ESCAPARIA O WILSON BIROSQUEIRO: VAI PAGAR E DOBRO. NA MARRA, SE PRECISO. QUEM MANDOU ABANDONAR?
NÃO FUI RAINHA, DISSE BAIXINHO, A GENTE TODA OUVIU.
NO CAIR DAS MÃOS, NO FECHAR DOS OLHOS, NO SECAR DOS LÁBIOS, A DOUTORA MARIA CÂNDIDA COBRE O ROSTO DE ALTAIR MAURÍCIO.